Lula ataca Bolsonaro, mas discurso não esconde contradições do próprio governo

Lula ataca Bolsonaro, mas discurso não esconde contradições do próprio governo

Durante a cerimônia em Defesa da Democracia, realizada em referência aos atos de 8 de janeiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a mirar no antecessor, Jair Bolsonaro. Sem citar nomes diretamente, Lula classificou o ex-presidente como incompetente e afirmou que ele “não soube fazer” e que “vai perder outra vez”. A fala arrancou aplausos de aliados, mas também reacendeu críticas sobre a postura do atual presidente, que insiste em governar olhando para trás.

Em seu discurso, Lula destacou dificuldades enfrentadas no Congresso e exaltou conquistas de seu governo, afirmando que poucos cientistas políticos acreditavam que ele conseguiria governar com um parlamento adverso. O problema é que esse tipo de narrativa ignora um ponto central: Lula governa hoje com uma ampla base construída justamente a partir de negociações com o chamado “centrão”, grupo político que ele próprio já criticou duramente no passado.

Ao afirmar que não ficou “falando mal do outro governo”, Lula se contradiz no próprio discurso. A referência direta à incompetência de Bolsonaro mostra que o confronto político segue sendo um dos pilares de sua retórica. Para críticos, trata-se menos de comparação administrativa e mais de uma tentativa constante de manter a polarização viva, usando o adversário como escudo para problemas atuais.

Lula também exaltou números econômicos, como inflação controlada, aumento da massa salarial e queda do desemprego. Embora esses indicadores existam, economistas lembram que parte desses resultados está ligada a fatores externos, como queda de commodities, desaceleração global e políticas herdadas de ciclos anteriores. Além disso, o discurso ignora pontos sensíveis, como o crescimento da dívida pública, o aumento de gastos e a insegurança fiscal provocada por mudanças frequentes nas regras econômicas.

Outro ponto que gera críticas é a insistência do presidente em comparar seus três anos de governo com os oito anos anteriores de gestões petistas, em vez de fazer uma análise direta com o governo imediatamente anterior. Para opositores, essa estratégia serve mais para reforçar uma narrativa política do que para oferecer transparência real ao cidadão.

Ao dizer que “todas as previsões pessimistas foram derrotadas” e que quem apostar no negativismo “vai perder outra vez”, Lula adota um tom triunfalista que contrasta com a realidade de muitos brasileiros. A percepção de insegurança, o custo de vida ainda elevado e a dificuldade de acesso ao crédito seguem presentes no dia a dia da população, algo que números macroeconômicos nem sempre refletem.

Além disso, o discurso constante de defesa da democracia levanta questionamentos quando confrontado com decisões controversas do governo, como vetos, aproximação com regimes autoritários no cenário internacional e tentativas de controle de narrativas sob o argumento de combater desinformação. Para críticos, defender a democracia exige mais do que discursos simbólicos; exige coerência institucional e respeito ao pluralismo político.

Ao atacar Bolsonaro, Lula reforça sua base mais fiel, mas corre o risco de afastar eleitores que esperavam um governo menos focado em disputas pessoais e mais concentrado em soluções práticas. A insistência em transformar cada evento institucional em palco de confronto político pode até funcionar no curto prazo, mas aprofunda a divisão do país no longo prazo.

O presidente foi eleito com a promessa de pacificação nacional. No entanto, falas como essa mostram que o discurso de união muitas vezes fica restrito ao papel. Para uma parcela crescente da população, o governo Lula ainda parece mais preocupado em vencer o passado do que em resolver, de forma clara e objetiva, os desafios do presente.

A crítica não está em defender Bolsonaro, mas em cobrar coerência. Governar exige mais do que apontar erros do adversário. Exige assumir responsabilidades, aceitar críticas e apresentar resultados que façam diferença real na vida das pessoas — algo que o discurso político, por si só, não entrega. https://kiwify.app/H63IUam?afid=YoXi4vEy

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